Dia da Consciência Negra

Emanoel Araujo, 75
Com a coluna ereta e o olhar desconfiado, Emanoel Araujo, 75, adentra uma sala como se a conquistasse a cada passo, em câmera lenta. Diretor curatorial do museu Afro Brasil, ele acredita que, 11 anos após fundar o espaço, a instituição começa a cumprir o seu papel. “O museu informa, educa e sobretudo e cria uma espécie de autoestima para os afrodescendentes e para quem precisa entender esse Brasil profundo que não está em nenhuma outra instituição brasileira”, diz.

Ele acredita que o museu cobre uma lacuna de falta de informação e é taxativo quando fala sobre perspectivas em relação à igualdade concreta em direitos no país: “Enquanto não houver uma política educacional, nada muda”. Também faz um comentário que remete ao episódio recente de racismo sofrido por Taís Araújo —a atriz foi alvo de ataques no Facebook. “Não adianta alguém achar que, por ser da televisão, está livre de todos achaques das redes sociais e do recrudescimento que a cada dia se torna mais visível. Não se pode pretender que isso seja uma dádiva dos céus. É uma conquista da terra, do ser humano”, explica.

Não são raras as vezes que a cantora Xênia França, 27, ouve as perguntas: de onde você veio? É americana? “É até estranho você achar que em um país como o nosso, uma pessoa como eu seja considerada —como é mesmo que eu escuto?— exótica. Exótico é um animal, um bicho, uma coisa que ninguém nunca viu”, diz. Para ela, o termo está ligado à ideia de não conseguir desassociar a imagem do negro da escravidão. “É por isso que eu sou exótica. Vá la na Bahia para ver o tanto de gente exótica que tem por lá”, provoca.

Baiana de Camaçari, a vocalista do Aláfia veio para São Paulo para trabalhar como modelo. No entanto, ao se aproximar da música ela se encontrou e aproveitou a brecha de ter voz. “Num momento extremamente exacerbado, não só em relação à negritude, mas em relação à mulher e aos gays, por meio da música eu tenho oportunidade de ter o que dizer.” No grupo, formado por outros dez integrantes, ela canta referências ao candomblé e temas relacionados à política, ao cotidiano das periferias e ao racismo.

“Você quer que eu declame?”, pergunta dona Edite, 73, com um sorriso largo no rosto que pede um “sim”. “Eu fico muito feliz quando declamo, muito mesmo”, diz. Completamente cega, a mineira é frequentadora assídua e ativa do sarau da Cooperifa, na zona sul, há quase uma década. “Só faltei duas vezes neste ano”, diz. Lá, ela interpreta versos de poetas como Paulo Roberto e Cora Coralina, que memoriza ao ouvir fitas cassetes gravadas pela sobrinha.

O empresário afirma não poder negar a matemática de estudos que apontam desigualdades neste mercado em função da cor. Em abril, o Sebrae indicou que, apesar de negros serem proprietários de metade dos negócios no Brasil, a renda média dos empreendedores brancos é 116% maior. Geraldo defende que é preciso mudar a maneira de pensar. Para ele as pessoas estão presas a uma mentalidade de outro século, quando se entendia que o negro era inferior e, então, escravizado. “O que eu preciso é que me deem oportunidade de estudar. Consciência negra? Quem pintou a consciência? Eu sou a favor de ter uma consciência social”.

Joyce Venâncio

Quando tinha cerca de 16 anos, Cristina Xongani, 57, foi chamada por uma das professoras do seu curso de economia doméstica para ir até a frente da sala e conhecer uma nova profissão que tinha a cara dela: “baby sitter” (babá). “A professora começou a explicar porque eu tinha o perfil e me disse em sala de aula, em pé, pra todos me verem, que ela me queria como ‘baby sitter’ da filha dela”, conta. Cristina era a única negra entre os 40 alunos.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *