COI dá advertência, mas não pune gestos políticos em pódio nas Olimpíadas

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Antes das Olimpíadas o COI havia flexibilizado a regra 50 da Carta Olímpica, mas tinha mantido o veto a protestos durante cerimônias e pódios

Adalberto Leister Filho
FolhaPress

Ao contrário de sua história de perseguições a protestos, o COI (Comitê Olímpico Internacional) não puniu nenhum atleta por manifestações políticas no pódio das Olimpíadas de Tóquio-2020. Dois gestos ganharam maior repercussão durante o evento.

Na cerimônia de pódio do arremesso do peso feminino, a americana Raven Saunders, 25, que ficou com a medalha de prata, ergueu os braços em forma de xis. Na entrevista após a conquista, disse que o gesto significa “o cruzamento onde todas as pessoas oprimidas se encontram”.

Tanto o USOPC (Comitê Olímpico e Paraolímpico dos Estados Unidos) como a World Athletics (federação internacional de atletismo) se eximiram de punir a atleta. O comitê americano afirmou que a manifestação, que ocorreu após o hino, não atrapalhou a cerimônia de entrega de medalhas e foi respeitosa em relação as suas rivais. Já Sebastian Coe, presidente da World Athletics, disse que ” a geração atual tem mais vontade de se manifestar do que as anteriores”.

O COI, por sua vez, se eximiu de seguir adiante com o caso após a notícia de que Saunders havia perdido a mãe, Clarissa, 50, dias após conquistar a medalha olímpica. “O COI, obviamente, oferece as condolências a Raven Saunders e sua família. Dadas as circunstâncias, o processo, neste momento, está suspenso”, anunciou na ocasião Mark Adams, porta-voz do COI. O comitê pareceu aliviado de não precisar mexer no tema após o acontecimento trágico com a medalhista.

Outro caso que causou muita repercussão foi o das chinesas Bao Shanju e Zhong Tianshi, campeãs olímpicas da prova de velocidade por equipes do ciclismo pista. As atletas usaram broches do ditador Mao Tse-Tung, que governou a China de 1949 a 1976, ano de sua morte.

O uso de tais emblemas na cerimônia de pódio também é proibido. O Comitê Olímpico Chinês mandou explicações para o COI, que resolveu não punir as atletas. “Sobre a China, recebemos esclarecimentos e as atletas foram avisadas. Também recebemos garantias de que isso não acontecerá novamente. Com isso, o COI considera o caso encerrado”, afirmou Christian Klaue, diretor de comunicação do comitê internacional.

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Antes das Olimpíadas, o COI havia flexibilizado a regra 50 da Carta Olímpica, que proibia qualquer tipo de manifestação política, mas tinha mantido o veto a protestos durante cerimônias e pódios. Pelo novo regulamento, os atletas podem se manifestar antes do início das competições, como na entrada do time no campo ou na quadra ou ao ter seu nome anunciado nas arenas como ocorre em esportes como atletismo e natação. Gestos como o que fez Saunders no pódio ou uso de emblemas de conotação política, como utilizados por Shanju e Tianshi, continuam banidos.

Outro protesto marcante dos Jogos Olímpicos ocorreu no futebol feminino, quando várias equipes se ajoelharam no gramado, gesto que virou símbolo da luta antirracista nos Estados Unidos. A manifestação se deu em jogos como Suécia x EUA e Grã-Bretanha x Chile. Teoricamente, esse tipo de atitude continua vetada na Carta Olímpica.

Já as jogadoras da Austrália carregaram uma bandeira aborígene, nas cores vermelha, preta e amarela, antes da estreia no futebol feminino e não a tradicional do país. Os aborígenes foram alvo de massacre pelos colonizadores ingleses e de racismo pela população australiana no século 20. Hoje, os aborígenes correspondem a apenas 1% da população. O governo da Austrália tem editado leis compensatórias na tentativa de inserir essa população na sociedade.

A tolerância às manifestações políticas é um avanço dentro da política restritiva que era seguida pelo COI diante desse tipo de gesto. Historicamente, o comitê reprimiu severamente os protestos.

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Nos Jogos da Cidade do México-1968, Tommie Smith e John Carlos, velocistas negros americanos, ergueram os punhos cerrados durante a cerimônia do pódio dos 200 m do atletismo. O gesto era o símbolo dos Panteras Negras, grupo que lutava contra o racismo nos Estados Unidos. A imagem desse é uma das mais icônicas da história das Olimpíadas. Sob rígidas normas contra protestos na época, os velocistas foram banidos do evento e desligados da delegação dos Estados Unidos.

Em Munique-1972, novo gesto político no pódio rendeu punição semelhante. Vincent Matthews e Wayne Collett, campeão e vice dos 400 m, ficaram conversando e rindo durante a execução do hino dos Estados Unidos. Ambos foram considerados “desgrenhados” para uma cerimônia de pódio. Collett estava descalço e Matthews, com a camisa para fora do calção. “Não posso subir ao pódio e cantar o hino americano porque não acredito no que a letra dele diz. Gostaria que o que ele prega fosse verdade”, justificou Matthews.

O americano Avery Brundage, então presidente do COI, considerou o comportamento abominável e mandou expulsá-los dos Jogos Olímpicos. Sem eles, os Estados Unidos tiveram que desistir de participar do revezamento 4 x 400 m, prova em que eram favoritíssimos ao ouro.

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